Páginas ao vento

domingo, 17 de outubro de 2010

Em Busca de Uma Sociedade Mais Justa.

Utopia!
Uma sociedade mais justa não existirá nunca. Pois a noção de justeza - qualidade do que é justo, exato, preciso, certo - (diferente de justiça), social não se adequa à mentalidade atual que tem como nexo o mercado, o consumo, como inseridor da pessoa no contexto de cidadania e de sujeito.
Esse nexo pressupõe competitividade, na dualidade, com foco no individuo contra o outro. Uma música que encontramos no CD “Tudo foi feito pelo sol” dos Mutantes (sem Rita Lee), diz assim: “estão dizendo que é pra competir, mas eu só penso em te abraçar, não há nada na vida que me faça parar de amar! Estão dizendo que é pra eu te passar pra trás, mas eu só penso em te ajudar, não há nada na vida que valha eu parar de te amar”, vem mostrar o último bastião do romantismo, de uma juventude que ainda tentava a ideia da harmonia no coletivo. Portanto, a crença na possibilidade de uma sociedade mais justa.
Mas, no budismo, há uma pergunta para o neófito sobre como ele acha que é o mundo: sofrimento, é a resposta. A maneira de transformar-se em uma pessoa melhor e, consequentemente, transformar a sociedade por irradiação das atitudes, se dá pelo sofrimento. Transformar o sofrimento em luz!
Diz-se que só assim podemos calcar em nosso espírito as transformações para melhor em nós mesmos, mas, em uma sociedade sofredora como a nossa e uma sociedade composta de pessoas desinformadas sobre possibilidades de transformação, já que transformar para melhor implica ter coisas materiais para se sentir feliz, o sofrimento é tido como um incômodo que deve ser eliminado.
Assim, perde-se a oportunidade do aprendizado, já que negamos todas situações que nos incomodam e o consumo, nos traz alegrias efêmeras, fugazes, de um círculo vicioso atroz. Não vou repetir-me aqui no blá-blá-blá sobre sociedade de consumo, consumidores cidadãos, etc, etc. Apenas vou fazer notar que por estarmos desinformados sobre como nos transformarmos para melhor e por não termos atenção em nossos sofrimentos cotidianos, estamos perdendo a noção do melhoramento e continuamos caindo nos mesmos problemas que nos levam a novos sofrimentos.
É um círculo vicioso necessário para a manutenção do Status Quo. O filme: “what's so bad about feeling good?”, de 1968 (não me lembro do diretor), expõe este círculo vicioso das más necessidades institucionais – hospícios, hospitais, polícia, políticos – ao nos mostrar um vírus transmitido por um pássaro em uma grande cidade americana que, ao contaminar toda a população, a torna amável. Os casamentos proliferam, os divórcios diminuem, a agressividade se esvai, as pessoas deixam de consumir álcool e drogas e a comunidade se torna pacífica. Há a luta das autoridades na tentativa de evitar que a epidemia se alastre levando a sociedade (comercial) à ruína. Pois há uma dependência entre o funcionamento institucional atual e os horrores a que seus cidadãos são obrigados e acostumados a viver cotidianamente. É uma interdependência, ou seja, uma doença necessária da qual a sociedade vigente necessita de seus piores aspectos para funcionar da maneira que conhecemos.
Me parece, através de um distanciamento antropológico, que isso é real. Não há nada anunciando possibilidades de mudanças estruturais, ou mesmo de reforma das piores situações vigentes na atualidade nacional. A única saída que vejo, é pela via da educação, mas, os governos demitem, ou forçam a se demitir, pessoas empenhadas minimamente na realização destas mudanças/reformas. Cito dois casos: Cristóvão Buarque na educação e Marina Silva no meio-ambiente.
Para não politizar a conversa, digo que como somos anestesiados pela necessidade da massa, e isso implica questões quantitativas em detrimento das qualitativas, jamais observaremos as possibilidades que os atuais sofrimentos a que somos imersos se tornem potências alteradoras de quaisquer situações. Ou, em palavras mais simples, não há saída! Estamos imersos na barbárie!

4 comentários: