Páginas ao vento

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

HommoDemens

                                                  Deus, do ponto de vista de MichelAngelo

Começo reescrevendo um diálogo que consta no filme “Contato”, da década de 90, com Jodie Foster:

“_ Você acredita em Deus?
 _ Não acredito em algo que não se possa provar!
 _ Você amava seu pai?
 _ Nossa … e como!
 _ Então prove.”

Bem, é um diálogo entre um filósofo e uma cientista, mas vou estendê-lo para nosso cotidiano.
Não conseguimos provar se amamos alguém, ou o quanto amamos, nem mesmo como amamos.
Tomamos consciência do amor de outros sobre nós, como por exemplo, o amor de nossos pais, somente quando temos nossos filhos. Aí entendemos o quanto fomos amados e o que significa o que chamamos de sentimento do amor, que é o amor em si.
Para provarmos que amamos nossos filhos, acabamos por tentar provar este amor através da materialização em objetos de consumo, ou pela permissividade exagerada. Tentamos provar o amor materializando-o em objetos ridículos, do ponto de vista filosófico. Mas, estamos apenas agindo como cientistas da vida.
Já sobre a existência de Deus, muitos, mas muitos mesmo, de nós, acabamos por confessar que acreditamos Nele. Porém, ao nos perguntar, quem ou o que é Ele, tornamos Sua representação material, através de uma aproximação, em persona, que caiba em nosso ralo imaginário e que não passa de fantasia, ou de uma simples representação. Deus é improvável! Assim como o amor. Mas que existe, existe, pois a um deles ao menos somos capazes de confirmar experiência prática. Principalmente nós que temos filhos.
Já quando, na rua, o semáforo fecha no vermelho, também fechamos as janelas do automóvel para evitar o assalto, ou a violência.
Não nos atemos ante a possibilidade de que, a pessoa que está do lado de fora, teve, no mínimo, uma grande ausência em sua formação. A ausência do pai, ou da mãe, ou da avó e de seus amores. Uma ausência que tem por fundamento a plasticização do ser e sua formação social. Ausências que desconectam os sentidos que nos inserem, que nos dão lugares no mundo. Mas, eu também fecho o vidro do carro!
Porém estou tentando pensar sobre questões básicas que ajudam na formação de um ser humano pleno. Além do núcleo familiar e de suas histórias, que nos vão dar apoio para que possamos lidar com frustrações e dificuldades, a escola é o ambiente do confronto com o diferente e das possibilidades de superação e de entendimento de relações, representações e disciplinas que nos tornarão HommoSapiens.
Tenho que parafrasear Morin ao descrever HommoSapiens como aquele ser dotado de razão e sabedoria, mas que traz em si afetividade extrema, convulsiva, com paixões, crueldades, cóleras, ciúmes, inveja, arrogância, gritos, mudanças radicais de humor, que carregam consigo uma fonte permanente de delírios em sacrifícios sanguinolentos pelo poder. Um ser humano que é insuficientemente dotado de razão, e que, quando sua plástica social falha é dotado da desrazão, que o domina.
Vivemos num mundo de aparências, essa é a verdade. Apenas a espuma das realidades toca em nossos cotidianos, para nos dar sentido. Se nos sentimos rodeados por HommoDemens, temos que nos perguntar porque continuamos a exercer a falha que os formam. Pelé em seu milésimo gol, ofereceu-o às crianças destituídas de esperança. De lá pra cá nada mudou, pois continuamos a fechar as janelas de nossos automóveis, embora professemos acreditar em Deus e no exercício restrito do amor, desde que não nos contradigam.
Fiquei muito decepcionado com o fato de a nova presidente declarar que a questão da educação no Brasil estava boa e resolvida. Tenho visto em aulas ministradas em faculdades privadas, uma GRANDE deficiência no entendimento de textos, no respeito à hierarquia e na proposição de valores. Cito um “causo” ocorrido em faculdade de Londrina/PR: um grupo de alunos (cerca de 30) se aglomeram na coordenação de curso para pedir o afastamento definitivo do professor de sociologia. O motivo: o professor pediu a leitura de um livro; de todo o livro; completo; do começo, meio e fim, para o bimestre. O professor foi chamado à coordenação e ouviu o seguinte: “... mas professor, o senhor deu um livro inteiro pros alunos lerem?”
Pois é, já formamos a intelligentsia do país que vai comandar o mercado e permaneceremos no erro, não por falta de amor, mas por excesso de provas.

    
  Deus, do ponto de vista Teosófico.


2 comentários:

  1. Esse texto, sem dúvida, mexe com o interior de uma pessoa...ela sendo HommoSapiens ou não...sou amiga de seu sobrinho de São Paulo, que me indicou o texto e sei que em minha infância, ler um livro inteiro não era absurdo e sim uma alegria...a busca do conhecimento hoje em dia é tão imediata e simbólica, que ninguém quer se aprofundar...então...de volta aos vidros fechados...

    Mas fico-lhe grata por essa breve reflexão!

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  2. Pois é, Lara! Começamos o 2011 e sinto que estamos repetindo, repetindo ...

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