Estava folheando um livro que trago comigo desde 1973: Nova Consciência, jornalismo contracultural – 1970/1972. Seu autor é Luis Carlos Maciel, o qual já foi citado aí embaixo num texto meu. “A morte do liberal”; “As novas tribos”; “A nova família”; “Fascismo no Underground”; “Coisas boas”; “A cultura da bomba”; “O poder em jogo”, são os títulos dos capítulos do livro, terminando com “O fracasso da contracultura”. Como passei minha adolescência numa cidade do interior paulista, o livro supria o anseio por novidades e mudanças que não encontrava no caminho da escola, ou do clube e, mesmo, entre os amigos. A revista “Geração Pop” surgiu na trilha poeirenta dessa senda com grandes apelos comerciais, transformando o que era especial em nossas mentes, numa produção industrial espraiada.
Esses títulos ainda são atuais. Mas, quem são os sobreviventes do underground entre nós? Quem são os outsiders de nossa sociedade? Muito ao contrário do que ocorria naqueles anos, nossa juventude, ou ao menos parte dela, não procura se espelhar nesse segmento, porque sua existência é extremamente marginal aos apelos que nos chegam pelas diversas mídias.
Certo dia deste ano, caminhava em direção à praça, no quarteirão ao lado de casa, quando presenciei a seguinte cena: um mendigo quase se arrastava com seus sapatos grossos, inchados e desfeitos, a pele suja e marrom, cabelos desgrenhados com um saquinho de supermercado onde deveriam estar seus bens. Em frente de seu caminho, numa casa amarelinha, um rapaz ensaboava sua perua Pálio Weekend de cor negra, brilhante, cheia das coisas, ao som de um potente sertanejo universitário. O mendigo parou e deve ter pedido alguma coisa, não cheguei a ouvi-lo, mas ouvi a resposta raivosamente gritada: “_ NÃO, NÃO TENHO NADA PRA DAR!”
Assim, o farrapo humano seguiu seu caminho, arrastando os pés e olhando para o chão.
Fiquei pensando para além do automóvel do rapaz, em sua geladeira cheia de coisas paradas, à espera de alguém utilizá-las, na TV Combo da Net, no DVD, nas caixas de som ao lado do sofá de courino, na cama arrumada com lençóis limpos e travesseiros, no banheiro com sabonete Phebo e toalhas macias, nos quadros de paisagens nas paredes, na despensa cheia de produtos do supermercado, na ração do cachorro, no telefone celular de modelo atualizado, no computador com internet, no guarda-roupas lotado, com roupas que não viam o sol há pelo menos 2 anos, sem falar nos sapatos de bico fino, nos pares de tênis e meias brancas; no assoalho brilhante, no curso da faculdade privada e nas conversas nos bares a noite, regadas a cerveja e petiscos, na companhia de garotas sertanejas universitárias. “_ NÃO, NÃO TENHO NADA PRA DAR!”
Neste segundo turno, confesso, votei em branco. Não engulo o fisiologismo, o nepotismo e o simonismo que foi revelado numa administração petista. Mas, torço para que o governo dê certo. Para que a promessa feita de acabar com a miséria nesse país seja cumprida. Colaborarei como for possível para que isso aconteça. Gostaria que a oposição não fosse uma oposição idiota, que luta pelo fracasso, mas que se oponha às falcatruas que possivelmente venham a ocorrer, porque gente de todo tipo está envolvida nesse mister, de ambos os lados. Gostaria de ver uma manchete nos jornais do futuro: “O sucesso de nossa cultura”, mas não aquela cultura divulgada como típica de nossa gente, exemplo ralo de brasilidade, mas uma nova cultura, arraigada em nossa alma, de respeito e disponibilidade aos diferentes: uma homenagem a la Darcy Ribeiro, de um tropicalismo humanista moreno e amoroso que nos completará a dignidade.
Como sempre você escreve bem demais, Clau! Bacana a tua reflexão e a honestidade do ponto de vista. Beijo.
ResponderExcluirMau, esperanças !!! ...
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